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27.12.07

A ITÁLIA QUER PUNIR A OPERAÇÃO CONDOR. O BRASIL, NÃO.

Celso Lungaretti (*)

“Às 18 horas do dia cinco de dezembro de 1973, meu pai
Joaquim Pires Cerveira (...) se dirigiu a um encontro com seu
companheiro de Organização (...) João Batista de Rita Pereda.

“Atropelado e seqüestrado com Pereda no centro de Buenos
Aires pela Operação Condor, foram entregues à ditadura brasileira.

“Foi assassinado em 13 de janeiro de 1974 no DOI-Codi da
Barão de Mesquita (RJ), tornando-se um desaparecido político.

“Dali para frente, a vida se resumiu na busca da verdade e dos
seus restos mortais.”

(Neusah Cerveira, jornalista, economista e geógrafa)


A Justiça italiana acaba de pedir ao governo do Brasil que colabore no interrogatório, prisão e extradição de brasileiros envolvidos na Operação Condor, um esquema de colaboração informal que sete ditaduras sul-americanas mantiveram durante o período 1973/1980 para perseguir, aprisionar e atentar contra opositores que, exilados, estavam teoricamente fora do alcance de suas garras.

Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai foram as nações que facilitaram a atuação extraterritorial de agentes da repressão, na maioria das vezes capturando “subversivos” para serem secretamente recambiados a seus países de origem, supliciados em centros clandestinos de tortura e depois executados.

A ocultação dos cadáveres, para que não restassem indícios dos crimes cometidos, era o desfecho habitual dessas operações. Um documento secreto da Força Aérea Brasileira, datado de 1977, revela que se chegou a lançarem corpos no Rio La Prata, mas essa prática teve de ser abandonada porque estava “criando problemas para o Uruguai, como a aparição de cadáveres mutilados nas praias”, passando-se então a utilizar “fornos crematórios dos hospitais do Estado (...) para a incineração de subversivos capturados”.

Foi, enfim, uma alternativa hedionda a que as ditaduras recorreram para evitar os trâmites demorados dos processos de extradição e as garantias que o Direito internacional prescreve para os extraditados.

Um caso célebre no Brasil foi o seqüestro, em 1978, dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Díaz, vindos a Porto Alegre, com seus dois filhos, para denunciar os crimes da ditadura do seu país. Os quatro foram capturados e entregues às autoridades do Uruguai. Se a revista Veja não noticiasse, dificilmente teriam sobrevivido.

Só no ano 2000 Universindo Díaz sentiu-se suficientemente seguro para relatar o ocorrido. Segundo ele, os espancamentos começaram já no apartamento em que ele foi capturado e prosseguiram na sede do DOPS: "Nos bateram brutalmente. Nos colocaram no que chamam no Brasil de 'pau-de-arara' – dependurados do teto, pelados, nos deram choques elétricos, água fria, golpes, e assim nos foram interrogando durante horas e horas. Havia uma espécie de divisão internacional de trabalho – os brasileiros golpeavam e os uruguaios nos interrogaram".

O episódio de maior repercussão internacional foi a explosão de uma bomba no carro do ex-embaixador chileno Orlando Letelier, em pleno bairro diplomático de Washington, no ano de 1978. O atentado cometido por agentes da repressão política do Chile, a Dina, resultou na morte de Letelier e de sua secretária, causando tanta indignação nos EUA que o país deixou de apoiar a ditadura andina.

ATRASO, TIMIDEZ, IMPUNIDADE – A punição dos responsáveis por esse período negro da história sul-americana está acontecendo com atraso e timidez, face à enormidade dos crimes cometidos. Muitos carrascos morreram antes de responderem por suas atrocidades. Mas, pelo menos, sinaliza para os pósteros que nem sempre as regressões à barbárie ficam impunes.

O Uruguai condenou à prisão o ex-ditador Gregório Alvarez, em cujo governo “desapareceram” 20 cidadãos uruguaios aprisionados na Argentina e repatriados ilegalmente, não aceitando sua alegação de que desconhecia a existência da Operação Condor.

A morte livrou o antigo ditador chileno Augusto Pinochet de cumprir a merecida pena de prisão pela autoria de nove seqüestros e um homicídio, mas seu ex-chefe de Inteligência Manuel Contreras não escapou: foi condenado a 15 anos de detenção por ter planejado o assassinato de Letelier e está preso.

A Argentina também está prestes a julgar o ex-ditador Rafael Videla e 16 cúmplices, por crimes contra a humanidade.

E, agora, a juíza italiana Luisanna Figliolia expediu um mandado de prisão contra 140pessoas suspeitas de participação na Operação Condor, dentre elas 11 brasileiros, 61 argentinos, 32 uruguaios e 22 chilenos. O caso tramita desde 1999, a partir de denúncias apresentadas por parentes de 25 italianos que desapareceram sob regimes militares na América Latina.

O ministro da Justiça Tarso Genro logo descartou a extradição, por considera-la “inconstitucional”, dos acusados brasileiros. Ficou implícito que, na opinião do ministro, dificilmente eles serão punidos, embora Tarso vá tomar as providências burocráticas rotineiras, ao receber o pedido das autoridades italianas.

O Exército, por sua vez, informou ao UOL que não vai se pronunciar oficialmente sobre o caso, que está sob tutela do ministério da Justiça por envolver "a soberania brasileira". Essa preocupação com a soberania aparentemente não existia quando se franqueava o território nacional para a caçada a casais inofensivos e suas crianças.

Então, para nosso opróbrio, só nos resta concordar com o procurador da República italiano Giancarlo Capaldo: "Esse processo nasceu na Itália porque os países unidos em torno da Operação Condor decidiram não abrir investigações sobre o assunto. A Itália está fazendo o possível para evitar a impunidade e para que operações como essa não voltem a acontecer”.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

====== POST SCRIPTUM: VÍTIMAS E ALGOZES ======

A nova edição do "Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos a partir de 1964", organizado pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, lista pelo menos seis brasileiros que desapareceram na Argentina como possíveis alvos da Operação Condor: Francisco Tenório Cerqueira Júnior (1976), Roberto Rascardo Rodrigues (1977), Luiz Renato do Lago Faria (1980), Maria Regina Marcondes Pinto de Espinosa (1976), Sidney Fix Marques dos Santos (1976) e Walter Kenneth Nelson Fleury (1976).

Os argentinos sumidos no Brasil são Norberto Armando Habegger (1978), Lorenzo Ismael Viñas (1980), Horacio Domingo Campiglia (1980), Mónica Susana Pinus de Binstock (1980), Jose Oscar Adur (1980), Liliana Inês Goldemberg (1980) e Eduardo Gonzalo Escabosa (1980). Os casos de Viñas e Campiglia passaram a ser investigados pela Justiça italiana no final dos anos 90 porque eles tinham dupla cidadania.

O primeiro desapareceu ao cruzar a fronteira da Argentina com o Brasil, de ônibus, perto de Uruguaiana (RS), e o segundo foi seqüestrado no aeroporto do Galeão, no Rio, junto com a guerrilheira Mónica Binstock. O processo na Itália resultou, no dia 24, em ordens de captura internacional emitidas pela Justiça italiana contra pelo menos 11 militares e policiais brasileiros. Os outros casos de argentinos desaparecidos no contexto da Operação Condor são investigados pela Justiça argentina. No Brasil, não há registro de processo criminal sobre o assunto.

"Pré-Condor", outras atividades conjuntas de países sob ditadura já haviam eliminado brasileiros no exterior. Documentos liberados recentemente citam, por exemplo, uma "Operação Mercúrio", que estaria por trás do desaparecimento, em janeiro de 1974, dos guerrilheiros brasileiros João Batista Rita Pereda e Joaquim Pires Cerveira. Nessa fase pré-Condor, outros seis brasileiros desapareceram no Chile entre 1973 e 1974: Antenor Machado dos Santos (1973), Jane Vanini (1974), Luis Carlos de Almeida (1973), Nelson Souza Kohl (1973), Túlio Roberto Cardoso Quintiliano (1973) e Wânio José de Matos (1973). Outro brasileiro, Luiz Renato Pires de Almeida, desapareceu na Bolívia em outubro de 1970.

Quanto aos 11 brasileiros cujo mandado de prisão foi expedido pela Justiça italiana, a relação é a seguinte:
1) Carlos Alberto Ponzi - ex-chefe do SNI em Porto Alegre
2) Agnello de Araújo Britto - ex-superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro
3) Antônio Bandeira - ex-comandante do 3º Exército
4) Henrique Domingues - ex-comandante do Estado Maior do 3º Exército
5) Luís Macksen de Castro Rodrigues - ex-superintendente da Polícia Federal no Rio Grande do Sul
6) João Leivas Job - ex-secretário de Segurança no Rio Grande do Sul
7) Átila Rohrsetzer - ex-diretor da Divisão Central de Informações
8) Marco Aurélio da Silva Reis - ex-diretor do Dops no Rio Grande do Sul
9) Octávio de Medeiros - ex-ministro do Serviço Nacional de Informações
10) Euclydes de Oliveira Figueiredo Filho - ex-diretor e comandante da Escola Superior de Guerra e irmão do ex-presidente Figueiredo
11) Edmundo Murgel - ex-secretário de Segurança no Rio de Janeiro

21.12.07

O RESCALDO DA GREVE DE FOME

Celso Lungaretti (*)

O bispo Luiz Flávio Cappio encerrou melancolicamente sua greve de fome contra o projeto de interligação das águas do rio São Francisco, no 23º dia, após sofrer um desmaio e ser hospitalizado.

Não obteve concessão nenhuma do Governo Federal, cuja intransigência acabou recompensada com uma vitória de Pirro. Impôs sua vontade, sim, mas de forma tão brutal como Margareth Thatcher, ao deixar Bobby Sands e outros nove militantes irlandeses morrerem em 1981.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, evidentemente, não quer ser lembrando como uma versão masculina da Thatcher, embora também siga a ortodoxia econômica neoliberal. Prefere comparar-se, p. ex., a Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas.

A primeira pretensão é risível, pois nada tem do estadista visionário (no bom sentido), civilizado e cordial que foi JK.

Também passa longe do Vargas dos anos 50, que confrontou o imperialismo e teve a grandeza de sacrificar a vida para impedir um golpe de estado direitista.

Quanto ao ditador de 1930/45, que tinha o carrasco Filinto Müller como sustentáculo e entregou Olga Benário para morrer num campo de concentração nazista, Lula ainda não possui currículo desumano equivalente, embora haja manchado em 2007 sua biografia com a deportação dos pugilistas cubanos e a postura inflexível face ao protesto do bispo de Barra (BA).

Dom Cappio não saiu da greve de fome tão vexatoriamente como Anthony Garotinho em 2006 e o próprio Lula em 1980. O primeiro, aos 46 anos, agüentou o jejum por 11 dias. Lula, no vigor de seus 34 anos, suportou míseros seis dias. Comparado a esses dois, o frei foi um herói, resistindo durante 23 dias aos 61 anos de idade.

Ninguém esperava que ele igualasse os 65 dias de Bobby Sands ou os 74 dias do também irlandês Terence MacSwiney (1920). Mas, se Dom Cappio perseverasse após ser liberado do hospital, o governo logo lhe ofereceria algum acordo – até porque a possível morte do bispo em pleno Natal seria politicamente catastrófica para o Planalto.

Combalido, Dom Cappio não percebeu que Lula e o ministro da Integração Nacional Geddel Vieira Lima blefavam, ao rejeitarem tão enfaticamente a negociação. Por questão de dias, deixou escapar o que seria (ou passaria por) uma vitória.

No fundo, Lula, Garotinho e Dom Cappio fizeram opções equivocadas, ao iniciarem greves de fome que não estavam dispostos a levar até o fim. Trata-se do trunfo derradeiro das batalhas políticas e de defesa dos direitos humanos, a ser utilizado apenas em circunstâncias extremas, quando o cidadão avalia que, sem atingir seu objetivo, não compensa continuar vivo.

Greves de fome que terminam sem vitória e sem morte fazem com que a opinião pública deixe de levá-las a sério. Então, como o governo saiu-se aparentemente bem pagando para ver, agirá da mesmíssima forma na ocasião seguinte. Alguém terá de morrer para reabilitar essa forma de luta.

Mas, em sua aparente derrota, Dom Cappio conseguiu uma vitória importante, ao recolocar o projeto oficial em discussão pública. Salta aos olhos que a interligação não é a opção ideal para saciar a sede dos nordestinos, nem a de melhor relação custo/benefício e muito menos a recomendável em termos ecológicos, devendo os motivos de sua adoção ser buscado alhures.

Ou seja, ficaram fortíssimas as suspeitas de que novamente os interesses privados estão sendo priorizados na destinação de recursos públicos. É a chamada crônica da CPI anunciada.

Dom Cappio ainda poderá rir por último.


* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

19.12.07

CARTA ABERTA AO PRESIDENTE LULA

Exmo. Sr. Presidente Luiz Inácio Lula da Silva,

há momentos decisivos na vida dos homens e das nações. Passamos por um deles agora.

Está em suas mãos garantir que os brasileiros tenhamos um Natal e um país do qual nos orgulharmos. Mas, se lhe faltar grandeza para tomar a decisão certa, seremos todos amaldiçoados. Pois nada de bom brotará no solo que recebeu o sangue de um mártir.

Governos e obras faraônicas passam, viram pó. Mas, exemplos de idealismo e desprendimento como o de Dom Luiz Flávio Cappio serão lembrados até o fim dos tempos.

Não se iluda. Quando a humanidade sair de sua pré-história e a desumanidade das últimas décadas representar um motivo de vergonha para todos os homens civilizados, Margareth Thatcher figurará nos livros de História como a primeira-ministra que deixou morrer Bobby Sands. Cabe-lhe decidir se quer ser lembrado como o presidente que deixou morrer Dom Cappio.

A relutância extrema do seu governo em discutir a interligação das águas do rio São Francisco é evidência gritante de que tal projeto não sobreviveria a um debate franco. E reforça as suspeitas de que haja interesses escusos envolvidos.

Cidadãos de reconhecida competência e credibilidade apontam falhas de todo tipo: concepção equivocada, relação custo/benefício muitíssimo pior que a de projetos alternativos, danos ecológicos que podem se tornar catastróficos. Por que tanta insistência, a ponto de tocar a obra com soldados, evocando os tempos sinistros da ditadura militar?

Erguer uma obra tão contestada sobre o cadáver de um homem justo será um crime inominável.

Mas, V. Exa ainda pode escapar dessa armadilha para a qual os maus auxiliares o conduzem. Basta ouvir a voz da militância, daqueles seres humanos sofridos e esperançosos que iniciaram a jornada consigo. E voltar a ser para eles, como Salvador Allende o era para os melhores chilenos, o “companheiro presidente”.

Estamos aguardando sua decisão, Sr. Presidente, para sabermos se vamos comemorar o Natal ou colocar luto por quem, guardadas as proporções, estará repetindo o sacrifício de Cristo.

Este é meu apelo desesperado: aja como um verdadeiro cristão. Dom Cappio não pode morrer!

Respeitosamente,

CELSO LUNGARETTI
19/12/2007

11.12.07

SENHOR DEUS DOS DESGRAÇADOS

“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!”
(“Navio Negreiro”, Castro Alves)

Celso Lungaretti (*)


A greve de fome de dom Luiz Flávio Cappio não admite meio-termo. Ou nos posicionamos com a dignidade de verdadeiros cidadãos ou nos igualamos aos seres abjetos que outrora compactuaram com a escravidão e hoje ignoram as súplicas de uma menina barbarizada à sombra do poder.

Passamos a vida recriminando a sordidez da política oficial e as negociatas que colocam recursos públicos a serviço de interesses privados. Como procedemos, no entanto, quando um bispo sexagenário ousa confrontar os abutres que saqueiam uma das regiões mais miseráveis do País e arrisca a vida em defesa do seu rebanho? O que estamos fazendo para apoiar esse altaneiro desafio às práticas viciadas e viciosas de nossa democracia? Pouco, quase nada.

De quantos outros escândalos e mares de lama precisamos para aprendermos a desconfiar de empreendimentos que governos tentam enfiar pela goela da comunidade adentro? Desta vez, até o Exército foi requisitado, para reforçar ainda mais a semelhança com os projetos faraônicos e as práticas totalitárias da ditadura militar...

Há fundadas suspeitas de que essa interligação das águas do rio São Francisco seja uma péssima aplicação dos recursos públicos, perdendo de longe para opções de menor custo e maior benefício, além de poder causar enorme dano ecológico.

A arrogância com que o Governo Federal trata as vozes dissonantes é uma confissão involuntária de que seu projeto não sobreviveria a um debate franco – aquele com que acenaram a dom Cappio para que encerrasse sua greve de fome de 2005, esquivando-se, depois, de cumprirem a promessa.

É uma falácia a pretensão do ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, de que a vitória nas urnas equivalha a um cheque em branco para o Governo agir como bem entender durante quatro anos, sem prestar contas à comunidade.

E chega a ser risível sua afirmação de que “o diálogo não pode impedir que políticas públicas sejam implementadas”. Ou seja, dom Cappio poderia passar o tempo que quisesse dialogando com Geddel, enquanto os soldados estivessem tocando o projeto em ritmo de marcha acelerada, para torná-lo irreversível em proveito daquelas elites que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tanto vitupera na retórica e tão bem atende na prática.

É claro que o gesto extremo de dom Cappio seria desnecessário se o TCU e o Congresso Nacional cumprissem realmente sua missão de defender os interesses dos cidadãos. Mas, sabemos todos, há muito a cidadania está órfã.

Então, à luz dos ensinamentos cristãos, o bispo de Barra (BA) tem todos os motivos para tentar evitar que as verbas destinadas à região sejam novamente mal empregadas. Pois, em última análise, a vida dos humildes está colocada na balança e, na ótica oficiosa das autoridades oficiais, pesa muito menos do que os lucros dos poderosos.

Finalmente, aos áulicos e fariseus que invocam a Bíblia para proteger os vendilhões do templo, lembro que jamais Gandhi, dom Cappio e nem mesmo Bobby Sands buscaram o suicídio. Sua aposta foi sempre em despertar o senso de justiça que, diz Platão, é inerente ao ser humano.

Se o nosso senso de justiça continuar embotado e deixarmos dom Cappio morrer, nem mesmo o Deus dos desgraçados nos perdoará.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

5.12.07

LULA VAI MIRAR-SE EM CRISTO OU PILATOS?

Celso Lungaretti (*)

Qualquer semelhança entre as frases abaixo NÃO é mera coincidência:

“Então Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou inocente do sangue deste justo. Considerai isso.” (Mateus 27:24)

“Eu tenho de escolher entre ele, que está fazendo uma greve de fome premeditada, e 12 milhões de nordestinos (...) que precisam da água para sobreviver. E não tenha dúvida que eu ficarei com os pobres." (presidente Luiz Inácio Lula da Silva, lavando as mãos diante do novo protesto de dom Luiz Flávio Cappio contra o projeto da transposição das águas do rio São Francisco, iniciado no último dia 27)

Resta sempre a esperança de que Lula ponha a mão na consciência e faça a opção correta: não a de repetir Pilatos, que, mesmo não vendo culpa nenhuma em Cristo, foi responsável por seu açoitamento e crucificação; mas sim a de repetir Cristo, que expulsou os vendilhões do templo para evitar que continuasse servindo de covil a ladrões.

O bravo bispo de Barra (BA), que já ficara 11 dias sem alimentar-se em 2005, sustenta que “essa água não é para 12 milhões de pessoas, é para pequenos grupos do capital”, acusando o Governo Federal de difundir “propaganda falsa” e Lula, de desrespeitar o acordo que pôs fim à greve de fome anterior:

– Nós só suspendemos o jejum lá em Cabrobó porque houve um compromisso para que fossem paralisadas as obras e houvesse negociações. Nós confiamos na palavra do governo. O diálogo teve início, mas logo se acabou. Nós acreditávamos que fosse devido ao ano eleitoral. Quando Lula foi reeleito, nós o procuramos, pedindo a reabertura do diálogo. A resposta do presidente foi o início das obras de transposição, usando o Exército. O governo manteve-se surdo. As coisas ficaram piores. Este é o motivo pelo qual retomei o jejum.

Segundo os opositores, a transposição vai ter impacto extremamente negativo sobre o rio São Francisco (que já está fragilizado e necessitando de urgente revitalização) ao levar suas águas para os grandes açudes do Nordeste, com a principal finalidade de favorecer empreendimentos privados.

Alegam que, pela metade do custo, poderia ser implementados projetos como o da Agência Nacional de Águas, para beneficiar os 32 milhões de habitantes de mais de mil municípios; e as obras da Articulação do Semi-árido Brasileiro, voltadas para outros 10 milhões.

Então, tanto em termos ambientais quanto econômicos, seria uma péssima destinação dos recursos públicos. "O governo se tornou a voz de um pequeno grupo da elite e, infelizmente, o presidente Lula se tornou refém do capital internacional", afirma dom Cappio, que desta vez se diz disposto a levar seu protesto até a morte, se não for retirado o Exército e arquivado o projeto. “O rio e o povo merecem.”

Ele também rebateu as críticas dos que o acusam de suicida, como o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, para quem “essa postura fundamentalista do bispo vai contra ensinamentos da igreja, como saber que é pecado atentar contra a vida”:

– Eu recomendaria que conhecessem um pouquinho mais a pessoa de Jesus Cristo e a sua doutrina. Que lessem o Evangelho de João 10:10, onde Jesus diz que ele é o bom pastor, que veio pra doar a vida às suas ovelhas. A história da Igreja é uma história de mártires, de homens e mulheres que deram a vida por amor à sua fé, por amor a seus irmãos.

Finalmente, vale lembrar que personagens históricos da grandeza do Mahatma Gandhi também consideraram válida uma “greve de fome premeditada”, como recurso extremo para tentarem fazer com que a justiça prevalecesse, quando todos os outros caminhos estavam bloqueados.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

27.11.07

PEQUENAS FARSAS E TRAGÉDIAS

Celso Lungaretti (*)

Existem ocasiões em que não encontro nenhum acontecimento com peso suficiente para ser “o“ tema do meu artigo semanal. Fico vagando por jornais e pelos provedores, busco uma luz em notícias da véspera e nas do próprio dia, inutilmente. Então, só me resta dar uma repassada geral nas pequenas farsas e tragédias do dia-a-dia.

Circula uma enxurrada de textos, alguns explicitamente opinativos e outros que o são de maneira implícita, sobre Chávez, o caudilho da Venezuela. Preciso me beliscar para não confundi-lo com o humorista do México, que, pelo menos, é histriônico no bom sentido.

Apesar do matraqueado cantinflesco de Chávez soar caricato para quem não tem antolhos ideológicos, vale lembrar que os militares-presidentes que nos assolaram em passado recente foram todos sinistros. E, pelo andar da carruagem, não vai ser ainda desta vez que a regra terá exceção.

No fundo, Chávez repete a mesmíssima fórmula dos Vargas e Peróns de outrora. Uma combinação de métodos fascistas, retórica esquerdista e conquista do aplauso fácil dos pobres com as migalhas do assistencialismo.

Dói-me o coração ver que parte da esquerda brasileira embarca nessa canoa furada, nada tendo aprendido com as decepções do século passado.

Quanto não se têm líderes realmente comprometidos com as duas bandeiras fundamentais dos revolucionários – a liberdade e a justiça social –, é melhor arregaçar as mangas e tentar forjá-los, mesmo que no longo prazo, do que apadrinhar o candidato a ditador populista mais à mão.

Maquiavel é péssimo guru para os esquerdistas. Quem tenta utilizar personagens políticos para fins diversos do que a trajetória dos mesmos sugere, acaba, isto sim, sendo por eles utilizado em sua escalada para o poder... e depois descartado.

Então, é melhor voltarmos ao bê-a-bá: fins e meios estão em permanente interação, de forma que recorrer-se a um meio crapuloso para promover um fim nobre leva apenas ao aviltamento do próprio fim.

Outra lição preciosa vem do jornalismo: só idiotas se deixam pautar pelos adversários.

Se a imprensa burguesa – burguesa como nunca, aliás, pois está cada vez mais na mão dos bancos – exagera maliciosamente a importância geopolítica da Venezuela, não há motivo nenhum para fazermos o mesmo, com sinal trocado.

O destino da América do Sul é traçado pelo Brasil e Argentina. As outras nações decidem, quanto muito, o destino delas próprias e o de outras pequenas nações. Ponto final.

* * *

Enquanto isto, o Governo Lula tem como prioridade absoluta o caixa. Quer porque quer beneficiar-se de uma contribuição que foi vendida à cidadania como provisória – e depois de o PT ter sido, antes da chegada ao poder, o maior adversário de sua eternização.

Nunca foi tão apropriada a citação do trecho final de A Revolução dos Bichos, o libelo anti-stalinista (não anticomunista, como supõem os desinformados) de George Orwell: "As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco".

* * *

A Assembléia Legislativa de São Paulo cogita tomar o mandato do bravo deputado Carlos Giannazi (PSOL), que organizou o evento de lançamento da Frente Parlamentar em Defesa da Comunidade Gay e agora está sendo responsabilizado pela performance de um transformista no plenário.

Terá sido a primeira? No sentido figurado, não. Em cada votação importante, há um certo número de transformistas que, após um acerto de cifras ou demarcação de áreas de influência, deixam de ser homens e viram lobisomens...

Giannazi é aquele mesmo professor que, como vereador do PT, ousou confrontar a prefeita Marta Suplicy quando esta tentou desviar verbas do magistério para outras finalidades.

Ou seja, o caso raríssimo de um político mais fiel ao seu eleitorado do que às conveniências partidárias. Merece ser apoiado. Precisa ser preservado.

* * *

Uma governadora, uma juíza e uma delegada dividem as responsabilidades por ter uma menina sido atingida nos seus mais elementares direitos quando estava sob a guarda do Estado e, depois, pela tomada de providências muito aquém da gravidade do caso.

Veio-me à lembrança uma frase pessimista de Nelson Rodrigues: “os mineiros só são solidários no câncer”.

* * *

O desabamento da arquibancada do estádio baiano é mais uma tragédia que poderia ter sido evitada, caso os responsáveis pelas tragédias evitáveis anteriores houvessem recebido punições exemplares.

Na lógica capitalista levada às últimas conseqüências, dinheiro vale mais do que vidas. Só a Justiça poderá desarmar essa equação maldita – isto, claro, se o dinheiro não valer mais do que a Justiça.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

25.11.07

DOIS CASOS DE PODRIDÃO ESCANCARADA

Celso Lungaretti (*)

CASO 1: o diretor de redação de um grande jornal, quase sexagenário, inicia relacionamento amoroso paralelo com uma repórter que não tem nem a metade da sua idade. Em flagrante abuso de poder, coloca sua protegida à testa de uma importante editoria, embora existissem muitos profissionais mais qualificados para o cargo (os coronéis nordestinos, pelo menos, bancavam eles próprios os agrados às suas teúdas e manteúdas).

Alguns anos depois, em 2000, ela já está bem posicionada na carreira e resolve descartar o protetor, em benefício de uma relação mais sincera. Inconformado, ele premedita a vingança, atrai-a para uma emboscada e a baleia pelas costas; depois, caminha calmamente até a vítima agonizante e lhe dá o tiro de misericórdia na cabeça.

Ficou míseros sete meses em prisão preventiva. Foi condenado a 19 anos e 2 meses de detenção, depois reduzidos para 18 anos. As manobras jurídicas e a condescendência dos poderosos em relação aos da própria laia o têm salvado do cumprimento da sentença.

O Superior Tribunal de Justiça acaba de confirmar a liminar que lhe garante a imerecida liberdade até que a condenação transite em todas as instâncias. Com a idade avançada do assassino e o arsenal de recursos protelatórios à disposição de quem pode pagar os melhores advogados, um homicídio duplamente qualificado, por motivo torpe, acabará lhe custando apenas os sete meses já cumpridos.

CASO 2: um governador de Estado, em 1993, vislumbra seu antecessor, inimigo político, numa mesa de restaurante. Caminha até ele e o surpreende com três disparos à queima-roupa (dois no corpo e um no rosto). A agressão covarde deixa a vítima com seqûelas que a martirizam durante os dez anos restantes de vida.

O agressor covarde se beneficia, primeiramente, da proteção da Assembléia Legislativa, que nega autorização para o processo criminal. Depois, eleito senador, consegue evitar as instâncias normais e só responde por sua tentativa de assassinato no Supremo Tribunal Federal, já que os parlamentares têm fôro privilegiado.

O processo leva 12 anos para entrar na pauta de julgamentos!!! Quando isto finalmente acontece, basta ao réu renunciar ao mandato de deputado federal (e, portanto, ao fôro privilegiado), para que volte tudo à estaca zero. Ninguém duvida de que no seu estado de origem, do qual seu filho é o atual governador, a Justiça não se fará antes do réu se safar definitivamente em razão da idade.

Os dois casos falam por si. O que eu poderia acrescentar? Shakespeare já disse tudo. Há algo de podre neste reino em que a Justiça antes se vergava ao arbítrio dos tiranos e agora se verga ao prestígio dos poderosos. E no qual os poderosos não se vexam de ser lembrados para sempre como criminosos que não tiveram sequer a dignidade de expiar suas culpas, preferindo burlar acintosamente a Justiça.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

UM REGISTRO PARA A POSTERIDADE

Aos 42 anos, certa noite saí de um cinema, fui atravessar a rua e acordei num hospital público, com três fraturas na tíbia, sem sequer lembrar-me do que havia ocorrido.

Durante a lenta recuperação, dei-me conta de que poderia ter morrido naquela noite, insensivelmente. Apenas não despertaria neste mundo. Talvez num outro, talvez em nenhum.

A consciência da nossa mortalidade nos chega assim, de repente. Num instante, nem pensamos nisso, mas nos sentimos como se ainda tivéssemos décadas e décadas pela frente. No instante seguinte, cai-nos a ficha de que podemos ser surpreendidos pela morte a qualquer momento.

O já surrado clichê: passei a viver cada dia como se fosse o último, a agir da maneira como gostaria de ser lembrado caso fosse esse meu derradeiro ato.

Devo ter-me tornado um ser humano melhor. Com certeza, mais guerreiro. Deixei de protelar minhas lutas para um amanhã que poderá não chegar.

Há, entretanto, um compromisso que assumi comigo mesmo e não estou tendo condições de cumprir, qual seja o de lançar mais luzes sobre o que aconteceu naquele terrível abril de 1970, quando a VPR foi praticamente desbaratada pela repressão.

Graças a um relatório secreto militar que veio a público e a um historiador honrado (até por ser ele também um ex-combatente), já consegui provar que, em circunstâncias obscuras, uma ou várias pessoas decidiram que eu levaria a culpa, perante a sociedade brasileira e a História, por algo que outra pessoa havia revelado à repressão: a localização da escola de treinamento guerrilheiro da VPR.

Mas, houve também uma seqüência terrível de prisões – as quedas em cascata que eram o pesadelo dos militantes da luta armada – e até agora foi insuficientemente explicada.

Disso não tentaram jogar a culpa em mim, porque seria impossível, estruturalmente, um comandante de Inteligência derrubar daquela forma a Organização no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Rio Grande do Sul.

Pelo nosso organograma, eu me reportava aos comandantes das unidades de combate (Juarez Guimarães de Brito e José Ronaldo Tavares de Lira e Silva) e aos comandantes nacionais Ladislau Dowbor e Maria do Carmo Brito. Como nenhum deles caiu por meu intermédio, eu não serviria como bode expiatório.

Uma informação importante: quando o Jacob Gorender colhia depoimentos para escrever “O Combate nas Trevas”, remanescentes da Organização se reuniram em Lisboa e combinaram entre si as versões que lhe contariam, nas entrevistas que ele já solicitara.

Vai daí que as quedas em cascata da VPR, em abril/1970, foram atribuídas, na edição inicial do “Combate nas Trevas”, a apontamentos encontrados no aparelho de Juarez Guimarães de Brito.

É UMA INFÂMIA: CANALHAS VIVOS DECIDIRAM TRANSFERIR SUAS CULPAS A UM COMPANHEIRO DE COMPORTAMENTO IRREPREENSÍVEL, QUE MORREU HEROICAMENTE PELA CAUSA!

Como tive a honra de lutar ao lado do Juarez, afirmo que ele era um dos companheiros mais ciosos das regras de segurança. Jamais deixaria qualquer tipo de registro que pudesse comprometer a liberdade e a vida dos outros militantes.

Aliás, como não sabíamos onde os outros se escondiam e só os encontrávamos nas ruas, nem haveria maneira de a repressão chegar a alguém a partir de meras anotações.

Àquela altura, nossos pontos já nem eram mais em locais fixos. Combinávamos que, a partir de certo número (o nº 500 da av. Rio Branco, p. ex.), um seguiria para cima e o outro para baixo, dando a volta no quarteirão até que ocorresse o encontro (alvos móveis teriam tempo maior de reação, caso houvesse uma emboscada).

Mais: quando era imperioso anotar essas coordenadas, o fazíamos em código, não explicitamente. “Rio Branco” viraria RB. O nº 500 seria substituído por um código de letras (no meu caso, GEE). O que fosse para cima, grafaria +. E o horário também entraria como letras.

Então, morto alguém, de que serviria para a repressão encontrar um papel em que estivesse escrito SEBE RB GEE +? Como conseguiria descobrir que significava 10h30, na av. Rio Branco, indo para cima a partir do nº 500?

Enfim, os que tinham realmente culpa pelas quedas em cascata imaginaram que poderiam atribuir ao Juarez deslize semelhante ao cometido décadas antes pelo Luiz Carlos Prestes, com suas famosas cadernetas. Enganaram a alguns por algum tempo. Mas, não todos por todo o tempo.

Depois, as mesmas pessoas contaram versões igualmente adulteradas para a Judith Patarra, de forma que os mesmos vilãos foram inocentados e os mesmos inocentes vilificados no livro “Iara”.

Mais recentemente, tomei conhecimento também de que uma pessoa que teve grande responsabilidade nas quedas de abril/1970 foi submetida a um tribunal revolucionário no Chile, em fevereiro/1971, por não haver se comportado nos porões de maneira compatível com a sua posição na Organização. Por que isso foi tão bem escondido da esquerda e dos historiadores?

Não sei se disporei de oportunidade e meios para tirar esses assuntos a limpo. Mas, tendo ocorrido um complô para falsificar a verdade histórica, iludir historiadores e denegrir revolucionários (atirando-lhes culpas que não tinham), trata-se de algo gravíssimo. Espero que os historiadores de hoje, até por brio profissional, tentem elucidar estes fatos.

Por via das dúvidas, deixo este registro aqui.

É importante, sobretudo, que não pairem quaisquer dúvidas sobre Juarez Guimarães de Brito, um companheiro exemplar, cuja memória não deve jamais ser atingida por (faço questão de repetir) UMA INFÂMIA. De sordidez inqualificável.

P.S.: depois de ter escrito este registro, tomei conhecimento de que havia sido, sim, acusado de responsabilidade por "dezenas de quedas", no livro "Os Carbonários", de Alfredo Sirkis. Trocamos e-mails e ele renegou o que dissera sobre mim no seu texto original de 1978, informando que já se posicionara melhor, fazendo uma espécie de mea culpa, numa edição posterior da obra. Além disso, dispôs-se a incluir doravante minha incisiva refutação deste e de outro absurdo (uma imputação de colaboração com a repressão, totalmente estapafúrdia e sem fonte declarada). Aceitei suas justificativas e dei por encerrada a questão.

17.11.07

POLÊMICA C/ OLAVO DE CARVALHO: CONSIDERAÇÕES FINAIS

Companheiros e amigos,

embora considere Olavo de Carvalho desprezível como pensador, cidadão e ser humano, dei-me ao trabalho de polemizar com ele durante três semanas.

Depois de uma entrada triunfal, em que colocou seu artigo no "Diário do Comércio", no próprio blog e nos sites da direita radical, OC logo percebeu que se daria mal. Então, suas 2ª e 3ª intervenções ficaram restritas ao "Diário do Comércio", servindo apenas para salvar as aparências.

De minha parte, esforcei-me por tornar a polêmica conhecida, para que cumprisse seu papel: demonstrar, de forma cabal, que os ídolos da extrema-direita não têm consistência ideológica nem moral para confrontarem um homem de esquerda bem formado.

Pessoas que lhes são imensamente superiores em conhecimentos e caráter, às vezes se deixam intimidar por sua demagogia grosseira, evitando descer ao fundo do poço em que os fascistas invariavelmente tentam colocar a discussão. É um erro. Não devemos ceder um milímetro sequer diante dos representantes do retrocesso e da desumanidade.

Reinaldo de Azevedo, Diogo Mainardi, Jarbas Passarinho, Brilhante Ustra, Felix Maier, Olavo de Carvalho e que tais não passam de tigres de papel (parafraseando Mao Tsé-tung). Alguns deles têm ótimas tribunas, que a grande imprensa lhes disponibiliza alegremente, enquanto nega espaço para o nosso lado. No entanto, na batalha dos argumentos, não dão nem para a saída.

Infelizmente, eles ganham de nós na parte da divulgação: infestam o Orkut e as caixas de e-mails com sua propaganda enganosa. Têm muito mais recursos materiais do que nós, provavelmente graças a subvenções dos empresários reacionários.

Então, precisamos equilibrar esse jogo, utilizando as armas de que dispomos: a verdade e o voluntariado. Não podemos deixar que essa corja continue disseminando, sem ser contestada, seu veneno entre as novas gerações.

Eis os links da polêmica, para quem quiser espalhar e divulgar:

GOEBBELS INSPIRA DIREITA E ESQUERDA NA INTERNET: http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2007/09/goebbels-inspira-direita-e-esquerda-na.html
INUTILIDADE CONFESSA:
http://www.olavodecarvalho.org/semana/071024dce.html
O SAMBA DO OLAVO DOIDO:
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2007/10/o-samba-do-olavo-doido.html
BELLA ROBBA: http://net.dcomercio.com.br/WebSearch/v.asp?TxtId=201349&SessionID=811604801&id=1&q=(bella%20robba)%20AND%20(%20publicationdate%20=%20%2020071107%20)
BELLA CIAO:
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2007/11/bella-ciao.html
BELLA ROBA, O RETORNO:
http://www.dcomercio.com.br/noticias_online/938750.htm
ENTRADA DE LEÃO, SAÍDA DE CÃO:
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2007/11/entrada-de-leo-sada-de-co.html,

16.11.07

ENTRADA DE LEÃO, SAÍDA DE CÃO...

No dia 16/11/2007, o "Diário do Comércio" publicou a intervenção final de Olavo de Carvalho em sua polêmica comigo ( http://www.dcomercio.com.br/noticias_online/938750.htm ).

Inapelavelmente derrotado nos três focos principais da discussão (o Foro de São Paulo, os sites fascistas e as acusações levianas que fez ao meu comportamento como preso político), OC bateu em retirada, limitando-se a negar que tenha preconceito contra italianos e a fazer análises psicológicas irrelevantes, pois não possui credenciais acadêmicas nem morais para tanto.

Já que OC gosta tanto de expressões em desuso, há uma ótima para encerrar este debate: "entrada de leão, saída de cão".

AQUI "ERA" O PAÍS DO FUTEBOL

“No fundo desse país,
ao longo das avenidas,
nos campos de terra e grama,
Brasil só é futebol.
Nesses noventa minutos
de emoção e alegria,
esqueço a casa e o trabalho.
A vida fica lá fora,
(...) e tudo fica lá fora.”
(“País do futebol”, Milton
Nascimento e Fernando Brant)

É deprimente vermos todas as discussões de temas candentes reduzidas a cifras, à moda do ganancioso e mesquinho homo economicus.

Então, os satisfeitos (ou favorecidos) com a realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil ressaltam que serão estimulados o turismo, os investimentos em infra-estrutura, as parcerias com empresas privadas, a criação de empreendimentos e empregos temporários, etc.

Já os descontentes alegam que os cofres públicos serão novamente saqueados, repetindo o Pan-Americano de 2007, cujo orçamento de R$ 414 milhões foi oito vezes excedido, com o custo batendo nos R$ 3,7 bilhões; e que verbas serão desviadas de setores essenciais para a farra futebolística.

O mal da segunda posição é que ficará fragilizada se o coro dos contentes provar, na ponta do lápis, que os benefícios de ordem material excederão a conta a ser paga.

No entanto, como sempre, essa tediosa dança de números não capta o essencial: o megaevento não passa de poeira colorida jogada nos olhos dos brasileiros.

Já vão longe os tempos em que, como dizia o tema composto por Milton Nascimento e Fernando Brant para o filme Tostão, a Fera de Ouro (1969), as ruas do Brasil ficavam vazias e os estádios lotados nas tardes de domingo.

Os motivos vão desde a violência das torcidas até a disponibilização de muitas outras opções de entretenimento, passando pelo agravamento da luta pela sobrevivência.

Mas, para aqueles que realmente amam o futebol, o principal motivo é outro: já não existe espetáculo. A tônica passou a ser muita transpiração e quase nenhuma inspiração.

Na fase de ouro do futebol brasileiro, nossos grandes craques exibiam aqui mesmo seu talento, preferindo ser bem pagos em casa do que magnificamente pagos no exterior.

Um ou outro, como Didi, se deixava seduzir pelo canto das sereias. Mas, tínhamos Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Gerson, Tostão, Rivelino e outros que tais enchendo nossos olhos nas tardes de domingo.

De 1970 para cá, entretanto, o futebol foi se tornando, cada vez mais, mercadoria. E os interesses econômicos impuseram sua lógica avassaladora, a mesma que outrora relegava o Brasil à condição de exportador de café e importador de produtos industrializados.

Com a famigerada Lei Pelé (rendição incondicional ao maior poder de fogo dos grandes clubes estrangeiros), o Brasil hoje não consegue segurar suas revelações nem por uma temporada completa.

Rafael Sobis (ex-Internacional), Alexandre Pato (ex-Grêmio) e William (ex-Corinthians) foram negociados no instante em que começavam a se afirmar. Já se fala em vender o corinthiano Lulinha, promessa que pode até não vingar. E por aí vai.

Então, os grandes clubes brasileiros hoje montam seus times com maioria de jogadores limitados e alguns craques veteranos que retornam do exterior após terem virado bagaços, mais os meninos saídos das categorias de base e que são colocados na vitrine para atraírem compradores.

Fornecemos a matéria-prima futebolística que será processada lá fora e depois pagamos às redes estrangeiras para receber as imagens do verdadeiro futebol brasileiro: aquele que Ronaldinho e Robinho jogam na Espanha, Kaká na Itália e Diego na Alemanha.

De quebra, fica esse péssimo exemplo dado aos brasileiros: o dinheiro compra tudo.

O último craque que se dispôs a abrir mão de uma oferta mirabolante em nome de valores mais nobres foi Sócrates, em 1984: durante um comício das diretas-já no Anhangabaú (SP), o doutor comprometeu-se publicamente a, caso fosse aprovada a emenda Dante de Oliveira, recusar a proposta da Fiorentina e permanecer no Brasil para contribuir na redemocratização.

A infâmia dos parlamentares não só nos privou de uma saída da ditadura pela porta da frente, como encerrou a grande fase de um dos nossos supercraques e, sem dúvida, o melhor cidadão que o futebol brasileiro já projetou.

Desde então, o homo eticus foi sendo extinto em nossa terra arrasada. Sobrou apenas o homo economicus.

Concluindo: teremos nossa noite de Cinderela durante a Copa, mas a carruagem vai virar abóbora logo em seguida, no Brasileirão – pois, persistindo as tendências atuais, o de 2014 será tão ruim quanto o de 2007.

12.11.07

BELLA CIAO

Celso Lungaretti (*)

Ao intitular de “Bella Robba” (Diário do Comércio, 07/11/2007) sua tentativa de resposta ao meu artigo “O Samba do Olavo Doido”, Olavo de Carvalho faz uma óbvia e grosseira alusão à minha ascendência italiana.

Não é de estranhar-se, pois OC não perde ocasião de manifestar seu desprezo pelos seres inferiores, como os brasileiros que residem nos pequenos municípios interioranos. Talvez os italianos também não mereçam o apreço do filósofo campineiro que se radicou na Virgínia, EUA, para sentir-se entre iguais.

Eu, pelo contrário, orgulho-me não só de ser herdeiro da tradição humanística dos povos latinos, como também (e muito!) de haver seguido os passos dos partisans que enfrentaram o nazi-fascismo. Bella por bella, fico com “Bella Ciao”, a canção-símbolo da Resistência italiana.

Mas, minhas raízes também estão neste sofrido Brasil, em que os Lungarettis lutam contra as injustiças praticamente desde sua chegada, na imigração italiana: meu antepassado Angelo não hesitou em balear o irmão do presidente da República Campos Salles para defender a honra da família contra os desmandos dos barões da terra.

Meus iguais são as vítimas do capitalismo – no Brasil, em primeiro lugar. OC foi em busca dos seus na Meca do capitalismo. Questão de gosto... ou de caráter.

OC pede desculpas aos leitores por suas afirmações estapafúrdias anteriores, de que eu seria ex-prefeito de Pariquera-Açu e atual dono da Geração Editorial. No primeiro caso, diz que “Lungaretti não foi nem isso”, como se eu devesse me considerar uma nulidade por ter apenas lutado aos 17 anos contra uma ditadura sanguinária e, depois, feito uma honesta carreira de jornalista, ao mesmo tempo em que continuava a defender os ideais de liberdade e justiça social.

No essencial, ele novamente tergiversa e calunia, pois são as opções que restam a quem defende o indefensável.

O espantalho inverossímil – Esta polêmica começou quando toquei num calo dolorido dos profissionais do anticomunismo. Em 1964 eles usaram a “conspiração comunista internacional” como bicho-papão para assustarem a classe média e conseguirem êxito em sua segunda tentativa de usurpação do poder, depois que a resistência legalista fez abortar o golpe de 1961.

Não há espantalho igualmente apropriado nos dias de hoje. Então, para suprir a lacuna, eles tiveram de satanizar uma inexpressiva reunião de partidos e organizações de esquerda da América Latina, o Foro de São Paulo, apresentando-a como uma sinistra articulação para, nas palavras de OC, reivindicar “o poder ditatorial sobre todo o continente”.

Ou seja, Chávez e Morales estariam em vias de hastear a bandeira bolivariana em Wall Street, privando OC da segunda pátria que é a primeira no seu coração...

Evidentemente, eu só poderia comparar um disparate desses a fantasias cinematográficas como Moscou Contra 007 e O Rato Que Ruge.

Cônscio do ridículo, OC refugia-se agora na autoridade acadêmica: “Devo recordar, como autor de livros de lógica, que fatos documentalmente comprovados, reiterados até pela confissão direta de seu personagem principal, não têm satisfações a prestar ao critério de verossimilhança, o qual, por definição, é um mero julgamento de aparências, útil apenas quando não se tem acesso aos fatos”.

Leiam e releiam! Nada que eu pudesse dizer seria mais ruinoso para a reputação intelectual de OC do que ter apelado para essa embromação doutoral, subestimando a inteligência de quantos tomariam conhecimento do seu artigo. Para os vigaristas saírem-se bem, é preciso que existam otários. Eu não sou. Quem acompanha polêmicas políticas, também não. Então, noves fora, acaba sobrando apenas... um malandro-otário.

Onde está a comprovação documental de que Brasil e Argentina, as nações com peso decisivo na América do Sul, estejam sendo teleguiadas pelo Foro de São Paulo, em vez de perseguirem seus próprios objetivos geopolíticos? Em lugar nenhum, claro!

Os saraus da esquerda sempre produziram um blablablá triunfalista que nada tem a ver com a correlação real de forças. Aí vem um OC da vida, pinça meia-dúzia de arroubos retóricos, junta com uma interpretação distorcida dos fatos e sai trombeteando que o continente americano inteiro está a caminho de se tornar uma constelação de ditaduras esquerdistas.

Se tivesse um mínimo de honestidade intelectual, ele esclareceria que existem apenas alguns candidatos a caudilhos com projetos populistas-autoritários de perpetuação no poder, sem ruptura real com o capitalismo. Nem de longe a perspectiva de novos regimes castristas; quanto muito, tentativas de bisar o PRI mexicano.

Mas, claro, nunca se pode esperar sinceridade dos manipuladores políticos. E menos ainda daqueles que servem de gurus para os medíocres e ressentidos, fornecendo-lhes explicações simplistas para seus fracassos cotidianos. “A culpa é do Governo Lula!” “O Governo Lula é de esquerda!” “Então, a culpa é da esquerda!”

Embora se pavoneie como autoridade em lógica, OC só parece ter verdadeira afinidade com os sofismas.

Propaganda enganosa – Em sua cruzada contra a verossimilhança, OC volta a bater na tecla de que eu teria pedido “ação policial contra os sites liberais e conservadores”. Como se o cidadão de um país democrático não tivesse o direito de requerer o cumprimento das leis que coíbem crimes como incitação à rebelião, difamação e calúnia.

E como se os sites extremistas de direita – jamais citei qualquer outro além do Ternuma, do Mídia Sem Máscara, do Usina de Letras e do A Verdade Sufocada – fossem apenas “liberais e conservadores” e “supostos pregadores de rebeliões virtuais”, segundo afirma OC.

O Brasil padeceu 36 anos, no século passado, sob duas intermináveis ditaduras. Isto já é motivo suficiente para não sermos condescendentes com o Grupo Guararapes, integrado por oficiais aposentados das Forças Armadas que passam a vida incitando seus colegas da ativa a sublevarem-se contra ministros e presidentes, por meio de manifestos bombásticos que trazem exclamações do tipo “a honra ou a morte!”; ou com o tal Partido Vergonha na Cara, que exige “militares no poder já!”.

Se permanecessem como sociedades secretas, endereçando suas mensagens apenas a outros fanáticos, não estariam infringindo a lei. O caso muda de figura quando recorrem à comunicação de massa (Internet). E o acesso à Web lhes é propiciado exatamente pelos quatro sites da direita radical, veículos de propagação de suas exortações golpistas.

Além disso, tais sites mantêm permanentemente no ar centenas de artigos de propaganda enganosa, para denegrir os movimentos de resistência à ditadura militar de 1964/85 e seus participantes.

Trata-se de uma mistura infame de mentiras, meias-verdades e interpretação distorcida dos fatos, bem ao estilo do guru OC. E têm como matéria-prima os Inquéritos Policiais-Militares da ditadura, ou seja, informações arrancadas de seres humanos mediante torturas terríveis, a ponto de muitos (como Vladimir Herzog) terem morrido durante os interrogatórios.

Na Europa, um historiador que ousou negar a existência do Holocausto foi condenado à prisão. Algo deveria ser feito pelo Estado brasileiro para impedir que abutres continuem revirando o lixo ensangüentado da ditadura brasileira, no afã de caluniarem vivos e mortos. Por respeito à lei e por dever de gratidão para com aqueles que sacrificaram tudo em nome da liberdade.

Pontapé na virilha - Finalmente, o filósofo OC não tem pejo de recorrer aos golpes baixos: “Lungaretti, segundo ele mesmo conta, mal saiu da prisão e na primeira entrevista já começou a falar grosso contra a ditadura que supostamente o havia persuadido a fazer aquilo que os demais torturados, submetidos a idêntico tratamento, não puderam ser induzidos a fazer”.

Ou seja, mal saí da prisão em 1971 e já em 1978 comecei a falar grosso contra a ditadura que me havia persuadido a fazer aquilo que mais de 30 companheiros também foram induzidos a fazer.

Sintomaticamente, OC comete ato falho e deixa aflorar a verdade dos fatos, ao admitir que fui submetido “a idêntico tratamento” dos “demais torturados”.

Desde a Santa Inquisição se vem comprovando que há limites para a resistência do ser humano à tortura prolongada. Alguns dos revolucionários mais ilustres do seu tempo foram reduzidos à condição de confessar absurdos e balbuciar lamúrias nos julgamentos stalinistas.

Então, ninguém jamais conseguirá intimidar-me ao evocar aquele episódio em que, já sem forças para reagir depois de dois meses e meio de maus tratos, tendo sido mantido incomunicável à mercê dos carrascos muito mais do que os 30 dias que as próprias leis de exceção facultavam, com o tímpano recém-estourado ainda gotejando pus e sangue, manchas roxas no rosto e o corpo esquelético como o dos sobreviventes dos campos de concentração nazistas, fui conduzido a uma TV de madrugada e, sob ameaça de ser torturado até à morte, recomendei aos jovens que não ingressassem numa guerra já perdida.

O que OC supõe servir-lhe de defesa é a mais veemente acusação da desumanidade que ele defende no passado e tenta reviver no presente.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

3º MANDATO: UM SALTO NO ESCURO

Celso Lungaretti (*)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem uma grande chance de melhorar a imagem que deixará para a História, não cedendo à tentação de favorecer as tramóias dos áulicos para propiciar-lhe um terceiro mandato consecutivo.

Infelizmente, tudo indica que, escolhida a pior linha de ação, o Congresso Nacional não vai cumprir sua missão de defender a letra da Constituição (art 14, § 5º: “O Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito Federal, os Prefeitos e quem os houver sucedido, ou substituído no curso dos mandatos poderão ser reeleitos para um único período subseqüente”). Depois das barganhas de praxe, deverá adotar a posição de sempre, vergando-se à vontade do Executivo.

Então, Lula é quem decidirá, em última análise, se compensa atirar o Brasil numa aventura de conseqüências imprevisíveis ou mais vale esperar até 2014, correndo o risco de ver seu objetivo esfumar-se, como aconteceu com FHC.

O que pesará mais em seus cálculos: o interesse nacional ou a ambição pessoal?

O certo é que, nos países com dimensões continentais e economias diversificadas, a permanência indefinida de um mandatário no poder não transcorre tão automaticamente quanto em ilhas ou em pequenas nações que sobrevivem à custa de um único item de exportação.

O último exemplo bem-sucedido de hegemonia eternizada graças ao controle da máquina pública, da cooptação dos adversários por meio da corrupção e da conquista do eleitorado com as migalhas do assistencialismo foram os 71 anos em que o Partido Revolucionário Institucional dominou o México.

Emblematicamente, a chamada ditadura perfeita do PRI – pois a monopolização do poder coexistia com o pluripartidarismo e as eleições – não adentrou o século 21.

Por provir de casuísmos e representar uma mudança de regras com o jogo em curso, um terceiro mandato de Lula seria extremamente contestado por forças políticas à direita e também à esquerda.

Já é perceptível, hoje, o esvaziamento da centro-direita e da esquerda palaciana. Este processo tenderia a acentuar-se, colocando o Governo e seus aliados de aluguel sob o fogo cruzado de agrupamentos com mais firmeza ideológica.

O grande perigo é uma polarização entre direita e esquerda, como nos idos de 1964. Por enquanto, o grande capital e os EUA, tendo seus interesses bem servidos pelo Governo atual, não estimulam as conspirações dos que estão cansados da democracia.

Mas, se a radicalização chegar a um ponto em que se vejam obrigados a optar, os poderosos novamente retirarão as focinheiras dos seus pitbulls.

Um confronto desses sempre poderá acabar mal para milhões de brasileiros. Já a obediência ao princípio democrático de alternância no poder só aterroriza, realmente, alguns milhares de parasiteiros que têm boquinhas no poder e temem perde-las.

Torçamos para que Lula não ceda ao canto dessas sereias que, como as mitológicas, tramam a perdição. Dele, nossa ou de todos.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

8.11.07

O SAMBA DOS OLAVETES DOIDOS

Celso Lungaretti (*)

Meu artigo-resposta às incongruências e destemperos verbais de Olavo de Carvalho, O Samba do Olavo Doido, despertou fúria homicida de seus fãs, que, inclusive, escolheram-me como o homenageado do mês de uma comunidade rancorosa do Orkut, a Comunistas Caricatos.

Aceitando o desafio, lá compareci para um debate que, prometeram-me, seria civilizado. No entanto, a minha primeira série de respostas às perguntas feitas os desarmou de tal maneira que passaram, imediatamente, para as baixarias e agressões.

Recusando-me a acompanhá-los na guerra de insultos e constatando que o debate civilizado seria impossível ali, deixei a discussão. O tópico foi totalmente deletado por eles, bem como os posts em que eu colara O Samba do Olavo Doido, na sequência do ataque do OC a mim que eles triunfalmente haviam colocado no ar.

Se faltava uma prova da intolerância e obscurantismo dos discípulos de OC, eles a deram. Estão sempre prontos para o linchamento moral dos ausentes, mas não conseguem encarar sequer uma discussão de dezenas contra um, sem descerem ao nível dos esgotos.

Já no site do Observatório da Imprensa, os defensores do OC são obrigados a um mínimo de decoro e argumentação. Então, suas tentativas de me refutarem centraram-se em dois pontos:
· eu estaria sendo insincero ao repudiar ditaduras, já que, no fundo do coração, morreria de amores pelas ditaduras de esquerda;
· e teria manifestado vezo autoritário, ao pedir que o Ministério Público Federal e a Polícia Federal voltassem sua atenção para os sites fascistas.

Primeiramente, respondi-lhes que não gasto palavras em vão: ao me colocar contra todas as ditaduras, disse exatamente o que queria dizer e, aliás, já havia dito antes, em vários contextos. Se alguém viu numa bola de cristal que eu aceito determinadas ditaduras, sugiro que jogue a bola de cristal fora.

Quanto aos textos cuja veiculação na internet deveria ser punida, dou alguns exemplos.

O Ternuma me atribuíu a redação de um manifesto que a VPR distribuiria à imprensa depois de sequestrar o cônsul dos EUA em Porto Alegre. Nesse manifesto, estaria escrito que o cônsul confessara ser agente da CIA.

É totalmente falso. Nem eu, nem a VPR colocaríamos na boca de um diplomata o que ele não havia dito, antecipando um interrogatório que não ocorrera. Há uns três anos, exigi que o Ternuma tirasse essa mentira do ar. Continua lá até hoje.

Na semana passada, o antigo comandante de torturadores Brilhante Ustra passou a oferecer em seu site, para download, o chamado Livro Negro da Repressão, uma contrapartida infame da Inteligência militar ao projeto Tortura Nunca Mais. Entre outras falsidades, esse livro diz que eu fui um dos três quadros da VPR que julgaram um militante por traição.

Eu nem sequer soube desse caso. Ignoro se o episódio aconteceu mesmo ou não passa de mais uma fantasia. Mas, com toda a certeza, eu jamais tomaria em minhas mãos a decisão sobre o fuzilamento ou não de um companheiro.

Que direito têm o Ternuma e o A Verdade Sufocada de me atribuírem atos que não pratiquei e que contrariam frontalmente minhas convicções? Isso é calúnia e difamação, crimes capitulados no Código Penal. Nada tem a ver com liberdade de opinião e democracia.

GOLPISMO EXPLÍCITO

Quanto às conclamações sediciosas, eis, p. ex., um trecho de um manifesto do Grupo Guararapes, amplamente reproduzido nos sites fascistas: “O Presidente Lula não merece mais o nosso respeito (...). Não o consideramos nosso chefe, pois ele não respeita nem cumpre a Lei, não merecendo nossa subordinação. O Grupo Guararapes, em defesa da honra da Nação brasileira, espera que as Forças Armadas revertam tal afronta [a anistia ao Lamarca]. A honra ou a morte!”

Divulgadíssima no circuito virtual dos radicais de direita, a Carta Aberta aos Militares do Partido Vergonha na Cara conclamava as Forças Armadas a cumprirem "o seu papel histórico e constitucional de proteger o Brasil de comunistas e assaltantes e criminosos que ameaçam o nosso país”, concluindo com um enfático “Militares no poder já!”.

Que cada um julgue se é admissível isso tudo ir ao ar sem a responsabilização judicial dos autores e divulgadores.

Os radicais de direita estão extremamente incomodados com meus alertas, porque sabem ter infringido diversas leis de nosso País. E são as leis normais de uma nação civilizada, não a legislação de exceção que eles forjavam na caserna e impunham a todos os brasileiros pela força bruta. Quem tiver estômago para revirar os escritos nauseabundos publicados nos sites fascistas, encontrará, aos montes, afirmações que justificam a instauração de procedimentos legais.

Ademais, são artigos que versam sobre a ditadura de 1964 e os movimentos de resistência que a enfrentaram. Dão a visão dos carrascos sobre os acontecimentos históricos, utilizando informações dos famigerados IPM's, inclusive as sigilosas (aquelas que os militares negam possuir quando as autoridades as pedem).

Inquéritos que custaram o sangue e a vida dos meus companheiros são exumados para se caluniarem os vivos e os mortos. Como o Olavo de Carvalho caluniou o prestigioso professor Quartim de Moraes, que vem recebendo a solidariedade dos mais respeitados acadêmicos da Unicamp e de toda a comunidade intelectual.

O que essa gente faz é um escárnio, tripudiando sobre as vítimas de suas práticas hediondas. É como se reeditassem o Mein Kampf em plena Alemanha de 1946. Caso estivessem na Europa ou nos EUA, já teriam sido punidos - rigorosamente dentro da lei.

Negar a existência do Holocausto por lá é crime e levou até um historiador à cadeia. Já os responsáveis por nosso pequeno Holocausto têm o cinismo de invocar as liberdades democráticas, que não cansaram de violentar enquanto estavam no poder...

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

31.10.07

O SAMBA DO OLAVO DOIDO

Celso Lungaretti (*)

Em 1968, o grande Sérgio Porto não suportava mais os sambas-enredos sobre figuras históricas, que passaram a predominar a partir da turistização do carnaval carioca. Tratava-se de uma opção esperta para se agradar aos gringos e evitar atritos com a ditadura, mas que resultou catastrófica do ponto-de-vista artístico: os episódios eram narrados de forma simplista, oficialesca e, muitas vezes, equivocada.

A resposta de Sérgio Porto foi o genial Samba do Crioulo Doido, que, dizia a introdução, “tinha sido criado” por um compositor de escola-de-samba cuja cuca fundira de tanto lidar com os eventos da História, levando-o a fazer uma salada de épocas, fatos e personagens: “Joaquim José,/ que também é/ da Silva Xavier,/ queria ser dono do mundo/ e se elegeu Pedro II./ Das estradas de Minas,/ seguiu para São Paulo/ e falou com Anchieta./ O vigário dos índios/ aliou-se a D. Pedro/ e acabou com a falseta./ Da união deles dois/ ficou resolvida a questão/ e foi proclamada a escravidão...”

Olavo de Carvalho, que se apresenta como “jornalista, ensaísta e professor de filosofia”, também compõe seus sambas do crioulo doido. E o pior é que não se trata de sátira: ele acredita nas bobagens que escreve.

Assim, pretendendo me agredir (artigo “Inutilidade Confessa”, Diário do Comércio, 24/10/2007), ele já começa viajando na maionese: “Celso Lungaretti, que entrou para os anais da História Universal como prefeito de Pariquera-Açu, SP...”

Repetindo a mesma ladainha num programa radiofônico, ele deixou ainda mais evidenciado seu desprezo por esse município, ao acrescentar que sua população se limitava a três pessoas: eu, meu pai e minha mãe.

Mas, da mesma forma que o Tiradentes nunca falou com Anchieta, eu também jamais fui prefeito de Pariquera-Açu ou de qualquer outra cidade. Nunca disputei eleições para o Executivo ou o Legislativo. Sou paulistano e – com exceção do período em que participei da resistência à ditadura militar – sempre residi na Capital.

Parece que o rigor factual anda meio ausente das aulas do professor OC.

O festival de besteiras não pára

OC, em seguida, se refere a mim como “dono da Geração Editorial”. E diz que eu tenho “prosperado muito no ramo da propaganda comunista, a indústria mais pujante deste país”.

Uma passada de olhos pelo site da Geração seria suficiente para ele ficar sabendo que o dono da editora é o respeitado jornalista e escritor Fernando Emediato. E que eu sou apenas um entre dezenas de autores que compõem o cast da Geração.

Será que as aulas de filosofia de OC incluem o ensino da responsabilidade ética? Dificilmente. Afinal, ele me acusa de infidelidade aos princípios da democracia e da livre-expressão por exigir o fechamento judicial “dos sites conservadores na internet”.

E qual foi, realmente, minha proposta? “Reunir provas dos delitos que estão sendo cometidos (exortação à rebelião contra os Poderes da Nação, calúnia e difamação, principalmente), encaminhando-as às autoridades (a equipe que o Ministério Público Federal criou para combater os crimes virtuais ou, nas cidades menores, a Polícia Federal), à imprensa e às entidades de defesa dos direitos humanos”.

Ou seja, defendi e defendo a tomada de providências judiciais contra os sites extremistas de direita (não os meramente conservadores) que estejam pregando a derrubada do governo constitucionalmente eleito ou cometendo os crimes de calúnia e difamação, entre outros.

O que há de errado em pedir que as autoridades apurem crimes virtuais? O que as pregações golpistas e o uso de mentiras para satanizar-se cidadãos respeitáveis têm a ver com a democracia e a liberdade de expressão?

Moscou Contra 007 ou O Rato Que Ruge?

O principal motivo desse tiro que OC tentou dar em mim (e saiu pela culatra) foi a crítica que eu fiz, no meu artigo Goebbels Inspira Direita e Esquerda na Internet, à seguinte afirmação dele, OC, referindo-se ao Foro de São Paulo, em artigo de 15/01/2007: “...a entidade que já domina os governos de nove países não admite, não suporta, não tolera que parcela alguma de poder, por mais mínima que seja, esteja fora de suas mãos… o Foro de São Paulo, com a aprovação risonha do nosso partido governante, reivindica o poder ditatorial sobre todo o continente”.

Eu esclareci que o Foro se trata “apenas de um encontro bianual de partidos políticos e organizações sociais contrárias às políticas neoliberais”. E comentei que OC, com suas teorias conspiratórias, mais parecia “Ian Fleming introduzindo a Spectre numa novela de James Bond”.

A isso responde agora OC: “Fique pois o leitor sabendo que os partidos de Lula, Kirschner, Chávez, Morales e tutti quanti não governam nada ou então não pertencem ao Foro de São Paulo, embora eles próprios digam o contrário em ambos os casos”.

Qualquer cidadão sensato percebe quão delirante é a hipótese de que Brasil e Argentina, juntamente com cinco nações não especificadas, a Venezuela e a Bolívia, participem de uma tramóia para implantar ditaduras de esquerda em todo o continente americano (o que incluiria os Estados Unidos).

Quem crê ou tenta fazer os outros crerem que o populismo autoritário de Chávez determinará o destino de grandes nações como o Brasil e a Argentina, já foi além até das fantasias de 007. Isso está mais para O Rato Que Ruge, aquela ótima comédia com Peter Sellers...

Como o rigor geográfico também passa longe do pomposo professor de filosofia, ficamos sem saber exatamente quais os países em risco de se tornarem ditaduras. Mas, com toda certeza, a verdadeira ameaça é representada por quem já transformou a América Latina numa constelação de ditaduras e generalizou a prática de assassinatos e torturas nas décadas de 1960 e 1970: os companheiros de ideais de OC.

Grosserias e baixo calão: a linguagem dos becos

De resto, ele também nada tem a ensinar em termos de comportamento. No texto escrito, diz que “o que quer que um tipo como Lungaretti diga ou faça é inócuo como um pum de mosquito”. No falado, apela para grosserias ainda mais explícitas e palavras de baixo calão, atingindo inclusive minha mãe octogenária. A isso darei a resposta cabível de um homem civilizado, não a dos becos em que se originaram o nazismo e o fascismo.

Como não reconheço a mínima autoridade moral de OC para julgar meu comportamento, não perderei muito tempo com seus devaneios sobre episódios já esclarecidos.

Acusa-me de oportunista por, após 65 dias de incomunicabilidade e torturas, logo depois de sofrer uma lesão permanente e sob ameaça de morte, haver aceitado participar de uma farsa de arrependimento forçado, articulada pela Inteligência do Exército.

Quem pode avaliar uma atitude tomada em situação tão extrema são os outros combatentes, que também assumiram o risco de enfrentar a tirania, apesar da enorme disparidade de forças. Os iguais podem me julgar. Os carrascos, seus defensores e seus discípulos, não.

OC falta novamente com a verdade ao dizer que mudei de posição agora, por ser mais vantajoso para mim. Desde a primeira vez que fui procurado pela imprensa – entrevista concedida à IstoÉ em 1978 – sempre relatei as torturas sofridas e as circunstâncias dramáticas em que se deu aquele episódio.

Reiterei isso, na década seguinte, em entrevistas ao jornal Zero Hora e à revista Veja. E voltei a falar sobre as torturas durante a polêmica com Marcelo Paiva, em 1994. Além de haver travado uma luta dramática para salvar da morte quatro militantes que faziam greve de fome em 1986.

Felizmente, minhas palavras e atitudes estão registradas de diversas formas, tornando inócuas essas tentativas de desmerecer uma vida inteira dedicada à defesa da liberdade e da justiça social. Os leitores poderão facilmente encontrar elementos para decidirem de que lado está a verdade.

Finalizando: o samba do crioulo doido de OC toma ao pé da letra uma afirmação que o saudoso Lalau fez como blague. Quer que seja proclamada a escravidão e voltemos todos a viver debaixo das botas. Mas, o amadurecimento do povo brasileiro é bem maior do que supõe sua vã filosofia.

Ditaduras – todas as ditaduras – foram para a lata de lixo da História. E dela não sairão, por mais que suas viúvas esperneiem.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com

25.10.07

A ÉTICA É A ESTÉTICA DO FUTURO

Celso Lungaretti (*)

Quem colocou esta frase em circulação, atribuindo-a a Lênin, foi o genial cineasta Jean-Luc Godard, na década de 1960. Dado aos chistes e ao non sense, Godard pode ter sido ele próprio o autor. Pouco importa. O fato é que sintetiza bem a visão de mundo da juventude mais idealista do século passado.

Em 1968 e nos anos seguintes, tivemos as primaveras de Paris e de Praga, o repúdio universal à intervenção dos EUA no Vietnã, a resistência às ditaduras em todos os quadrantes, movimentos os mais diversos em defesa da justiça social e dos direitos das minorias, bem como a revolução de costumes conhecida como contracultura. Ventos de mudança varreram o planeta. Foi um impulso generoso, solidário, irmanando os melhores seres humanos na busca de um futuro digno para a humanidade.

Houve, portanto, um tempo em que muitos acreditaram piamente na iminência de uma sociedade na qual os relacionamentos entre os seres humanos, de tão éticos e gratificantes, iriam se tornar a realização da estética no cotidiano. Não precisaríamos mais da arte para sonhar acordados com uma beleza inexistente na vida real. O paraíso seria agora.

Depois, claro, veio a reação. E as flores foram sendo, uma a uma, arrancadas.

O capitalismo triunfante moldou o planeta à sua imagem e semelhança: competitividade, ganância, desigualdade, parasitismo, guerras inúteis, agressões insensatas ao meio ambiente, consumismo exacerbado, condenação de vastos contingentes humanos ao desemprego crônico e à miséria aviltante, degradação do pensamento, da arte e dos padrões morais.

Carlos Heitor Cony, que busca afoitamente outros privilégios mas foi privilegiado com dotes de grande escritor, escreveu em 1974 um romance profético, Pilatos. Mostra como seria um mundo em que os homens não tivessem nenhuma motivação idealista, sentimento nobre ou limites morais. Todas as suas ações visariam apenas à satisfação de apetites e de necessidades primárias.

Era um inferno mais assustador que o descrito nas religiões. E tinha tudo a ver com aquele Brasil dos yuppies enriquecidos pelo milagre econômico e das massas anestesiadas pelo tricampeonato de futebol.

Os personagens desumanizados de Pilatos lembram – até demais! – os arautos dessa nova direita emergente no Brasil, que faz do rancor e do retrocesso sua bandeira. O que parecia exagero literário virou triste realidade.

Há indivíduos que conspiram dia e noite para arrastar o Brasil a uma nova ditadura.

Há indivíduos capazes de escrever entusiasticamente em defesa de filmes que fazem apologia da truculência e da tortura.

Há indivíduos que se regozijam quando cidadãos exemplares são flagrados em situações equívocas, como se a grandeza do rabino Henry Sobel pudesse ser empanada pela cleptomania e a do padre Júlio Lancelotti, por distúrbios da sexualidade.

Demonstram ódio homicida pelos rivais ideológicos, a ponto de se aproveitarem de suas debilidades humanas – quem não as tem? – para instigarem seu linchamento moral. Como Átila e Gengis Khan, só vêem os inimigos como obstáculos a serem suprimidos.

Seus textos são um deserto de ideais. Não contêm nenhum sonho, nenhuma esperança, nada que sinalize um mundo melhor. Apenas a defesa encarniçada do status quo capitalista e o combate encarniçado aos que, bem ou mal, propõem alternativas.

São contra governos, partidos e pessoas. Abominam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. E não têm, sequer, a honestidade de seus congêneres da Espanha, adeptos de Franco, que assumiam abertamente os valores obscurantistas que professavam, ao urrarem “abaixo a inteligência, viva a morte!”.

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com

17.10.07

O LILIPUTIANO REINALDO AZEVEDO ATACA MAIS UM GULLIVER

Quero registrar minha irrestrita solidariedade a Alberto Dines, lenda viva do jornalismo brasileiro, face aos ataques vis e destrambelhados do pitbull de reacionários Reinaldo Azevedo.

Admiro Dines desde a terrível década de 1970, quando seu Jornal dos Jornais (página dominical na Folha de S. Paulo) foi um dos poucos respiradouros da imprensa brasileira, amordaçada pela ditadura.

Com extrema coragem e muito jogo de cintura, ele aproveitava a crítica da mídia para contrabandear informações melindrosas de bastidores, impulsionar a distensão política e expor as tramóias da linha dura.

Eu comprava sempre a Folha na madrugada de domingo e devorava o Jornal dos Jornais antes da noite de sono. Muitos outros jornalistas e cidadãos idealistas, obrigados a viver debaixo das botas, faziam o mesmo. O Dines lavava a nossa alma.

E, seguramente, correu riscos que pigmeus morais como Reinaldo Azevedo nem sequer conseguem aquilatar -- e jamais assumiriam, pois estão sempre a serviço dos poderosos, buscando fazer-se adotar pelos que melhor remuneram os serviços sujos.

Faço minhas todas as palavras do Dines a respeito do Reinaldo Azevedo e acrescento as que disse aqui. Indignidade tem limite.

Alguém como Alberto Dines não deve rebaixar-se a travar polêmicas com a escória do jornalismo. Isso cabe a nós, que estamos seguindo seus passos e seu exemplo na luta contra a fascistização da imprensa.

Celso Lungaretti, jornalista, em comentário publicado no Observatório da Imprensa.

Obs.: depois de se referir a Che Guevara como “porco fedorento”, o blogueiro Reinaldo Azevedo, abrigado na Veja, novamente expõe sua pequenez moral e intelectual, não se dando conta do papel ridículo que faz ao tentar atingir alguém situado numa altura totalmente inacessível para os vermes rasteiros. Fiz questão de me posicionar ao lado de Dines, como me posicionei ao lado do MR-8 dos anos de chumbo, dos estudantes que ocuparam a reitoria da USP, de Lamarca e de Guevara, também satanizados pela Veja e seus capangas.

Os textos referentes a essa polêmica são: “Debate simplista, respostas grosseiras" ( http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=454JDB007 ) e
“O grande circo da violência” ( http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=455JDB001 ), do Alberto Dines; e “Alberto Dines me chama de cão de guarda. E eu mordo calcanhar de velhacos”, “Não repudio a gravidade do velho, mas a tolice do moleque” e “Segundo Dines, coitado!, eu socorri a Folha!!! Acho que seu Haldol acabou”, do Reinaldo Azevedo ( http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/ ).

A simples menção dos títulos dá uma boa idéia da argumentação de Reinaldo Azevedo, que já foi flagrado defendendo posições racistas e agora trombeteia seu preconceito contra os idosos.

VEJA A FASCISTIZAÇÃO AVANÇANDO

Celso Lungaretti (*)

A fascistização da sociedade brasileira avança. Depois de fracassar na tentativa de colocar multidões na rua protestando contra o governo, a extrema-direita se reagrupa em torno de uma bandeira mais atraente: a volta à lei da selva no combate à criminalidade.

O sucesso comercial do filme Tropa de Elite e a polêmica em torno do relógio roubado de uma celebridade deu novo ânimo aos que estavam cansados da rejeição a suas pregações oportunistas.

E, como no caso do plebiscito sobre o comércio de armas – em que a Tradição, Família e Propriedade e as viúvas da ditadura investiram alto na campanha do “não” como mote para acumulação de forças – mais uma vez se evidencia que o calcanhar-de-aquiles da esquerda brasileira é sua postura de respeito aos direitos humanos.

Segundo pesquisa que, sob encomenda da Veja, o instituto Vox Populi desenvolveu junto a espectadores de Tropa de Elite, 72% consideram que, no filme, os traficantes são tratados como merecem; e 47% aprovam a prática de torturas contra os mesmos.

A mensagem do patrocinador não deixa dúvidas quanto às intenções da revista, que novamente utiliza sua matéria-de-capa como palanque reacionário: “...o Brasil, infelizmente, é um país de idéias fora do lugar por causa da afecção ideológica esquerdista que inverte papéis, transformando criminosos em mocinhos e mocinhos em criminosos. Aqui, a ‘questão social’ é justificativa para roubos, assassinatos e toda sorte de crime e contravenção”.

A Veja mente, como sempre. Inversão de papéis existe mesmo é em publicações que pregam uma volta aos castigos medievais, cancelando toda a evolução da humanidade a partir do Iluminismo. Enfocar a questão social de forma mais aprofundada, indo além do mero espírito de vingança, não significa compactuar com o banditismo.

Nem cabe à esquerda retroceder um milímetro sequer de posições corretas e civilizadas, mesmo que sejam impopulares. O desafio continua sendo o de mostrar a verdade à maioria, ao invés de curvar-se aos humores das massas.

Neste sentido, nada tenho a acrescentar ao que escrevi em fevereiro, no artigo A Barbárie nos Ronda:

“Inexiste forma ideal de se lidar com aqueles que já se tornaram bestas-feras, nocivos para si próprios e para a sociedade. Pode-se, quanto muito, controlá-los – e a um custo dos mais elevados para um país de tantas e tão dramáticas carências.

”Exterminá-los, jamais! Isso levaria a violência a patamares apocalípticos, pois os bandidos não teriam mais nada a perder. Nós, sim, perderíamos, ao abrirmos mão da civilização arduamente construída nos milênios que nos separam da horda primitiva, voltando à estaca zero.

”O xis do problema, no entanto, nunca é discutido: o fato de que a criminalidade é intrínseca ao capitalismo e subsistirá enquanto não substituirmos o primado da ganância e da competição pelo da solidariedade e da cooperação.

”Vivemos numa sociedade que desperdiça o potencial já existente para se proporcionar uma existência digna a cada habitante do planeta; que faz as pessoas trabalharem muito mais do que seria necessário para a produção do necessário e útil; que condena parcela substancial da população economicamente ativa ao desemprego, à informalidade e à mendicância; que estimula ao máximo a compulsão consumista sem dar à maioria a condição de adquirir seus objetos de desejo; que retirou do trabalho qualquer atrativo como realização individual, tornando-o apenas um meio para obtenção do vil metal (ou seja, uma nova forma de escravidão).

”Alguns excluídos continuarão vivendo das esmolas dos programas oficiais. (...) Outros tentarão obter pela força aquilo que jamais alcançarão pela competência. E servirão de espantalho para intimidar as classes superiores, fazendo-as crer que uma sociedade policial seria a solução.”

É exatamente para a sociedade policial que tentam nos conduzir a Veja e os Reinaldos Azevedos da vida.

* Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com

11.10.07

EL CIELO COMO BANDERA

Os mais perspicazes certamente terão notado um certo comedimento – e até constrangimento – em personalidades, publicações e agrupamentos de esquerda, ao reverenciarem a memória de Guevara, no 40º aniversário de sua morte. Alguns falaram pouco. Outros, platitudes. Como um personagem tão grandioso pôde inspirar textos tão insossos?

O fato é que o mito do Che expõe uma fratura na teoria e prática da esquerda mundial: grande parte dela desistiu, provisória ou definitivamente, de unir os proletários de todos os países numa maré revolucionária que varresse o planeta, conforme Marx e Engels pregaram desde o Manifesto do Partido Comunista, de 1848.

Levando em conta não só que os trabalhadores do mundo inteiro estavam irmanados pela sina de terem uma substancial parcela da riqueza que geravam (a mais-valia) expropriada pelo patronato, como também que a exploração capitalista havia subjugado países e culturas, submetendo trabalhadores de todos os quadrantes a uma mesma lógica de dominação, os papas do marxismo profetizaram que o socialismo seria igualmente implantado em escala global, começando pelas nações de economias mais avançadas e se estendendo a todas as outras.

O movimento revolucionário foi, pouco a pouco, conquistado pela premissa teórica do internacionalismo, ainda mais depois que a heróica Comuna de Paris foi esmagada em 1871 pela ação conjunta de tropas reacionárias francesas com o invasor alemão. Se as nações capitalistas conjugariam suas forças para sufocar qualquer governo operário que fosse instalado, então os movimentos revolucionários precisariam também transpor fronteiras, para terem alguma chance de êxito – foi a conclusão que se impôs.

A 1ª Internacional, que havia sido fundada sete anos antes, soçobrou principalmente devido ao impacto da derrota da Comuna de Paris sobre o conjunto do movimento operário europeu, mas a semente plantada frutificou na poderosa 2ª Internacional, que aglutinou em 1889 os grandes partidos socialistas consolidados nesse ínterim.

A bonança, entretanto, não fez bem a esses partidos. Muitos dirigentes, deslumbrados com os aparelhos conquistados, passaram a querer mantê-los a qualquer preço, lutando por melhoras para a classe operária do seu próprio país, em detrimento da solidariedade internacional. E teorizaram que o socialismo poderia surgir a partir das reformas realizadas pacificamente e do crescimento numérico da classe média, sem necessidade de uma revolução.

A deflagração da 1ª Guerra Mundial cindiu definitivamente o movimento revolucionário: os reformistas acabaram alinhados com os governos de seus respectivos países no esforço guerreiro, enquanto os marxistas conclamaram os proletários a não dispararem contra seus irmãos de outras nações.

Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo encabeçaram a reação contra os (por eles designados pejorativamente como) sociais-patriotas e os trâmites para a fundação da 3ª Internacional, contraponto àquela que perdera sua razão de ser.

O socialismo num só país – Em 1917, surgiu a primeira oportunidade de tomada de poder pelos revolucionários desde a Comuna de Paris. E os bolcheviques discutiram apaixonadamente se seria válida uma revolução em país tão atrasado como a Rússia – uma verdadeira heresia à luz dos ensinamentos marxistas.

Para Marx, o socialismo viria distribuir de forma equânime as riquezas geradas sob o capitalismo, de forma que beneficiassem o conjunto da população e não apenas uma minoria privilegiada. Então, ele sempre augurara que a revolução mundial começaria nos países capitalistas mais avançados, como a Inglaterra, a França e a Alemanha.

Um governo revolucionário na Rússia seria obrigado a cumprir tarefas características da fase da acumulação primitiva do capital, como a criação de infra-estrutura básica e a industrialização do país. O justificado temor de alguns dirigentes bolcheviques era de que, assumindo tais encargos, a revolução acabasse se desvirtuando irremediavelmente.

Prevaleceu, entretanto, a posição de que a revolução russa seria o estopim da revolução mundial, começando pela tomada de poder na Alemanha. Então, alavancada e apoiada pelos países socialistas mais prósperos, a construção do socialismo na Rússia se tornaria viável.

Os bolcheviques venceram, mas seus congêneres alemães foram derrotados em 1918. A maré revolucionária acabou sendo contida no mundo inteiro e, como se previa, várias nações capitalistas se coligaram para combater pelas armas o nascente governo revolucionário. Mesmo assim, o gênio militar de Trotsky acabou garantindo, apesar da enorme disparidade de forças, a sobrevivência da URSS.

Quando ficou evidente que a revolução mundial não ocorreria tão cedo, a União Soviética tratou de sair sozinha da armadilha em que se colocara. Devastada e isolada, precisou criar uma economia moderna a partir do nada.

Nenhum ardor revolucionário seria capaz de levar as massas a empreenderem esforços titânicos e a suportarem privações dia após dia, indefinidamente. Só mesmo a força bruta garantiria essa mobilização permanente, sobre-humana, de energias para o desenvolvimento econômico. A tirania stalinista cumpriu esse papel.

A revolução nunca mais voltou aos trilhos marxistas. Como único país dito socialista, a URSS passou a projetar mundialmente seu modelo despótico, que encontrou viva rejeição nas nações avançadas. Nestas, as únicas adesões não se deveram à atuação política dos trabalhadores, mas sim às baionetas do Exército Vermelho, quando da vitória sobre o nazismo.

Tomada autêntica de poder houve em outros países pobres e atrasados, como a China, Cuba, Vietnã e Camboja. E todos repetiram a trajetória para o modelo autoritário do socialismo num só país stalinista.

Mito libertário – Este é o quadro sobre o qual se projeta a figura impressionante de Che Guevara. Totalmente identificado com Fidel até a tomada de poder e durante os primórdios do governo castrista, ele acabou percebendo que o socialismo de seus sonhos não seria possível numa ilha pobre, asfixiada pelo embargo comercial e obrigada a sujeitar-se às imposições da URSS em troca de ajuda econômica e proteção militar.

Seguindo o exemplo de Garibaldi e Bolívar, ele foi lutar em outros países. Abriu mão do poder e de honrarias para efetuar tentativas desesperadas de romper o isolamento da revolução cubana. E, após sua morte, acabou se tornando o símbolo maior do internacionalismo revolucionário.

Seu exemplo e seu martírio inspiraram os jovens que, em 1968, protagonizaram a última maré revolucionária. Tanto os marxistas que foram à luta armada quanto os neo-anarquistas que barricaram Paris e cercaram o Pentágono, tinham Che como símbolo.

Tornou-se o maior mito libertário do nosso tempo, alimentando as esperanças de que ainda aconteça aquela revolução com a qual os melhores seres humanos sempre sonharam e Marx tão bem delineou, “o reino da liberdade, para além da necessidade”, em que:
* cada cidadão contribua no limite de suas possibilidades para que todos os cidadãos tenham o suficiente para suprirem as suas necessidades e desenvolverem plenamente as suas potencialidades; e
* o estado desapareça, com os cidadãos assumindo a administração das coisas como parte de sua rotina e a ninguém ocorra administrar os homens, já que eles serão, para sempre, sujeitos da sua própria História.

Para os esquerdistas que consideram irrealizável a utopia marxista e defendem situações intermediárias, o mito de Che evoca a rebelião jovem de 1968, por eles tão execrada. Daí reverenciarem Guevara apenas por obrigação.

Já aqueles que (como eu) acreditam que a retomada revolucionária se dará a partir dos marcos atingidos em 1968, estes sim são verdadeiramente entusiastas do mito Che Pueblo.

4.10.07

CHE PUEBLO

“El nombre del hombre muerto ya no se puede decirlo, quién sabe?
Antes que o dia arrebente, antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto,antes que a definitiva noite se espalhe em Latinoamérica
El nombre del hombre es Pueblo, el nombre del hombre es Pueblo”
(Capinan, Gilberto Gil e Torquato Neto, “Soy Loco Por Ti America”)

John Lennon disse em 1966 que os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo. Quatro décadas depois, o fab-four de Liverpool só vive na lembrança de fãs envelhecidos e de poucos jovens que buscam alternativas à mesmice da música atual.

O Che morreu há 40 anos e seu mito perdura até hoje, provocando ira exacerbada nos reacionários, a ponto de fazer alguns deles – jornalistas, veja que descalabro! –, transgredirem todas as regras do seu ofício.

Quais os motivos de culto tão perene?

Há quem o atribua, depreciativamente, à semelhança visual entre o Che abatido e o Cristo crucificado, omitindo que as trajetórias também são semelhantes.

Ambos desdenharam os bens materiais e foram solidarizar-se com os pobres, oferecendo-lhes apoio e esperanças. Despertaram a fúria dos poderosos de seu tempo e foram por eles destruídos, terminando sua jornada com muito sofrimento.

Evidentemente, os relatos que chegaram até nós sobre Jesus Cristo não têm áreas nebulosas como aqueles episódios em que Guevara parece haver incorrido em violência desnecessária.

Mas, se o Salvador disse que não vinha “trazer a paz, mas a espada”, foi Guevara quem a empunhou. E a guerra nunca inspirou os melhores sentimentos ao ser humano. Pelo contrário, desperta seus piores instintos.

Então, a luta justificada e necessária contra o tirano Fulgêncio Batista pode ter feito aflorar o Robespierre latente naquele homem afável, tão bem retratado por Walter Salles em Diários de Motocicleta.

Mas, contradições são inerentes a todo ser humano. Não existe o herói perfeito e impoluto, salvo em nossa imaginação.

O certo é que Guevara continuou sacrificando tudo por seu ideal de justiça social. Como Garibaldi, foi levar a chama da revolução a outro mundo, a África. E tentou outra vez na Bolívia, onde finalmente o Império o fez executar (mais um paralelo com Cristo!).

Sua vida só foi uma sucessão de fracassos para quem reduz a existência à busca do sucesso fácil, descartando valores como a solidariedade, a coerência e a dignidade.

Os que o recriminam, certamente jamais agiriam como Guevara, abrindo mão do poder e honrarias para efetuar desesperadas tentativas de romper o isolamento da revolução cubana.

Pode-se supor que, como Trotsky, ele tenha concluído que a revolução invariavelmente se deforma quando fica restrita a um só país – ainda mais uma nação pobre, atrasada e asfixiada pelo embargo comercial, como Cuba. E fez o que poucos fariam: assumiu a missão de encontrar uma saída para o impasse, nas condições mais desfavoráveis.

No mundo todo, os jovens que também lutavam contra o Império se identificaram com seus sonhos e seu martírio. Não foram uma foto e um pôster que o transformaram em mito, mas sim esse exemplo de dedicação a uma causa justa até o sacrifício extremo.

E, como os corações mais sensíveis e as mentes mais lúcidas não conseguiram vencer o sistema regido pela desigualdade e ganância, Che inspira até hoje os que não aceitam o capitalismo globalizado como o fim da História.

Daí a inutilidade desses vis ataques à memória do homem Ernesto Guevara. Não atingirão, jamais, o mito Che Pueblo, personificação dos ideais igualitários que os melhores seres humanos vêm acalentando através dos tempos.

* Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com

30.9.07

“VEJA” MIRA GUEVARA E ACERTA O PRÓPRIO PÉ

Celso Lungaretti (*)

Os 40 anos da morte de Ernesto Guevara Lynch de la Serna, a se completarem no próximo dia 9, dão ensejo a uma nova temporada de caça ao mito Che Guevara por parte da imprensa reacionária, começando por Veja, que acaba de produzir uma das matérias-de-capa mais tendenciosas de sua trajetória.

"Veja conversou com historiadores, biógrafos, antigos companheiros de Che na guerrilha e no governo cubano na tentativa de entender como o rosto de um apologista da violência, voluntarioso e autoritário, foi parar no biquíni de Gisele Bündchen, no braço de Maradona, na barriga de Mike Tyson, em pôsteres e camisetas”, afirma a revista, numa admissão involuntária de que não praticou jornalismo, mas, tão-somente, produziu uma peça de propaganda anticomunista, mais apropriada para os tempos da guerra fria do que para a época atual, quando já se pode olhar de forma desapaixonada e analítica para os acontecimentos dos anos de chumbo.

Não houve, em momento algum, a intenção de se fazer justiça ao homem e dimensionar o mito. A avaliação negativa precedeu e orientou a garimpagem dos elementos comprobatórios. Tratou-se apenas de coletar, em todo o planeta, quaisquer informações, boatos, deturpações, afirmações invejosas, difamações, calúnias e frases soltas que pudessem ser utilizadas na montagem de uma furibunda catalinária contra o personagem histórico Ernesto Guevara, com o propósito assumido de se demonstrar que o mito Che Guevara seria uma farsa.

Assim, por exemplo, a Veja faz um verdadeiro contorcionismo retórico para tentar tornar crível que, ao ser preso, o comandante guerrilheiro teria dito: "Não disparem. Sou Che. Valho mais vivo do que morto". Ora, uma frase tão discrepante de tudo que se conhece sobre a personalidade de Guevara jamais poderá ser levada a sério tendo como única fonte a palavra de quem posou como seu captor, um capitão do Exército boliviano (na verdade, eram oficiais estadunidenses que comandavam a caçada).

É tão inverossímil e pouco confiável quanto a “sei quando perco” atribuída a Carlos Lamarca, também capturado com vida e abatido como um animal pelas forças repressivas.

E são simplesmente risíveis as lágrimas de crocodilo que a Veja derrama sobre o túmulo dos “49 jovens inexperientes recrutas que faziam o serviço militar obrigatório na Bolívia” e morreram perseguindo os guerrilheiros. Além de combater um inimigo que tinha esmagadora superioridade de forças e incluía combatentes de elite da maior potência militar do planeta, Guevara ainda deveria ordenar a seus comandados que fizessem uma cuidadosa triagem dos alvos, só disparando contra oficiais...

É o mesmo raciocínio tortuoso que a extrema-direita utiliza para tentar fazer crer que a morte de seus dois únicos e involuntários mártires (Mário Kozel Filho e Alberto Mendes Jr.) tenha tanto peso quanto a de quatro centenas de idealistas que arriscaram conscientemente a vida e a liberdade na resistência à tirania, confrontando a ditadura mais brutal que o Brasil conheceu.

Típica também – e não por acaso -- da retórica das viúvas da ditadura é esta afirmação da Veja sobre o legado de Guevara: “No rastro de suas concepções de revolução pela revolução, a América Latina foi lançada em um banho de sangue e uma onda de destruição ainda não inteiramente avaliada e, pior, não totalmente assentada. O mito em torno de Che constitui-se numa muralha que impediu até agora a correta observação de alguns dos mais desastrosos eventos da história contemporânea das Américas”.

Assim, a onda revolucionária que se avolumou na América Latina durante as décadas de 1960 e 1970 teria como causa “as concepções de revolução pela revolução” de Guevara e não a miséria, a degradação e o despotismo a que eram submetidos seus povos. E a responsabilidade pelos banhos de sangue com que as várias ditaduras sufocaram anseios de liberdade e justiça social caberia às vítimas, não aos carrascos.

É o que a propaganda enganosa dos sites fascistas martela dia e noite, tentando desmentir o veredicto definitivo da História sobre os Médicis e Pinochets que protagonizaram “alguns dos mais desastrosos eventos da história contemporânea das Américas”.

Não existe muralha nenhuma impedindo a correta observação desses episódios, tanto que ela já foi feita pelos historiadores mais conceituados e por braços do Estado brasileiro como as comissões de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Políticos. Há, isto sim, a relutância dos verdugos, de seus cúmplices e de seus seguidores, em aceitarem a verdade histórica indiscutível.

E a matéria-de-capa da Veja não passa de mais um exercício do jus sperniandi a que se entregam os que têm esqueletos no armário e os que anseiam por uma recaída totalitária, com os eventos desastrosos e os banhos de sangue correspondentes.

* Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com
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